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Ribeirão Preto, 01 de agosto de 2010

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Fonte: Transerp

Anticristo

Delcy Mac Cruz *

Nos finais de semana, uma opção é assistir com mais tempo filmes em DVD. É possível, ou deveria ser, voltar a sequência não entendida, a imagem não captada. Voltar o DVD soa obrigatório com "Anticristo", de Lars von Trier, já nas prateleiras.

Trier, o dinamarquês de cinema teatral, provoca, como sempre, mesmo que não seja compreendido. O último dele que assisti, "Dogville", me deixou aturdido, com as sequências de sexo com Nicole Kidman lembrando cenas brutas, típicas de um mundo rural que a Dinamarca preserva, assim como nosso interior paulista.

Bom, o foco aqui é "Anticristo". Resumidamente, é um teatro filmado, com apenas dois atores 100% em cena (há outros, mas em pontas): Willem Dafoe (contido, com a fala mansa que quase não o ouvimos) e a bela Charlotte Gainsbourg.

Casados, eles personificam talvez uma das mais belas e intrigantes sequências do cinema recente, com uma transa sexual em um quarto escuro, friorento, com a neve lá fora e um filho recém-nascido que se libera do chiqueirinho, sobe na mesa, abre a janelinha e salta. De arrepiar.

Daí para frente, fosse um filme convencional, contaria o desespero, o luto, a falta de horizontes do casal. Trier mostra isso, mas provoca o espectador com um roteiro que confunde, aturde, não permite impassividade.

Por exemplo, ficamos sabendo que Dafoe (ou Ele, como citado) é um analista, que vai investir todo tempo para avaliar a mulher. Ambos vão para uma casa no meio do mato, onde ela visitou anteriormente em companhia do filho para tentar concluir uma tese.

Entre silêncios, olhares e o tempo que parece parado, a câmera de Trier investiga o casal. A casa, assim, torna-se o centro da trama. Dali para frente, o imóvel será palco de definições.
Há centenas de jeitos de ver, de explorar o filme. É uma obra aberta, em que o espectador saca definições conforme suas aptidões.

Por que odiei: o diretor cedeu um pouco ao cinema convencional, mas mantém seu estilo duro, onírico, de esbanjar superioridade ante o espectador. Por que amei: "Anticristo" é cinema que faz pensar, goste-se ou não do que é projetado.

*Jornalista



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