Sua cidade como você nunca viu
Ribeirão Preto, 01 de agosto de 2010
Sábado, 31 de julho
Fonte: Transerp

"Foi chocante". Este foi o comentário que mais se destacou ao final da sessão de ‘Entre os Muros da Escola', filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2008. "Chocante pois não é como os outros filmes, que sabemos que terá um final feliz", explicou depois a professora, num bate papo rápido na saída do cinema.
Em ‘Entre os Muros...', o diretor Laurent Cantet optou pelo mesmo método de filmagem de "Recursos Humanos" (1999), em que mostrava a realidade de uma fábrica - apenas imagens internas, com personagens não-atores, em tom quase documental. Talvez daí venha a reação da professora na subida dos créditos. A realidade choca.
O filme é uma extensão do livro escrito pelo professor François Bégaudeau, que vive a si próprio na tela. Estamos numa escola da periferia de Paris, numa classe de sétima série frequentada por filhos de imigrantes. Rapazes e moças de seus 14, 15 anos, no auge de seus rótulos. Tem o gótico rejeitado pela turma, tem a princesinha da classe, tem o oriental sabe tudo. Mas tem também o fator que emperra o sistema pedagógico no mundo todo - a diferença entre o que se ensina e a realidade.
São muitos os questionamentos levantados pelos alunos, para o espanto do professor François. De que vale aprender a conjugar o verbo no imperfeito do subjuntivo, linguagem antiga e de burguês, como define uma aluna, que nunca será usada por eles? Por que o professor insiste em usar personagens americanizados, como Bob e Bill, em suas frases, se está numa sala de aula de maioria muçulmana? Se aprender o processo da combustão na aula de química não é tão importante, como o próprio professor reconhece, porque então isso é ensinado?
Mais do que expor as características dos alunos, ‘Entre os Muros...' escancara o papel do professor e a falta de rumo do sistema de ensino. Esqueça a boa conversa de Sidney Poitier em ‘Ao Mestre Com Carinho' ou a poesia de Robin Williams em ‘A Sociedade dos Poetas Mortos' na tentativa de controlar seus pupilos. François Bégaudeau não está em Hollywood. Dentro de uma sala de aula da periferia francesa, ele tem que se virar para ensinar algo durante um semestre e, claro, muitas vezes falha nesta missão. Fraqueja quando chama duas alunas de "vagabundas", fica em dúvida sobre o que poderá acontecer lá fora com o aluno insolente prestes a ser expulso e entrega os pontos no último dia de aula quando é procurado por uma aluna que confessa não ter aprendido absolutamente nada de disciplina alguma.
Aí está o desafio proposto pelo filme. Como ensinar os jovens da escola pública no século 21? Uma verdadeira lição de casa para professores, diretores, alunos e pais do mundo todo. (AD)