Sua cidade como você nunca viu
Ribeirão Preto, 01 de agosto de 2010
Sábado, 31 de julho
Fonte: Transerp

Quando Solange casou, veio junto, além de um marido, uma tia. Uma tia bacana, culta, bem informada mesmo. Só que ela mora longe, lá em Minas, quase divisa com o Rio de Janeiro.
Mas, uma vez por ano, essa tia se abala do lugar aonde vive, Juiz de Fora, para vir até a cidade da sobrinha. Pra passar uns dias juntas e não deixar, assim, que a distância acabe por afastá-las, já que descobriram várias afinidades.
Só que a tia Lygia escolhe a dedo esses dias. Passados alguns anos, já não há ninguém que creia que seja pura coincidência. Afinal, a mulher desembarca por aqui, de mala e cuia, sempre nos mesmos dias. São, invariavelmente, aqueles que antecedem a Feira Nacional do Livro.
Antes disso, por semanas a fio, as duas tricotam muito: sobre a programação, quem vem este ano e coisa e tal. Uma cá e outra lá, vão se preparando para o grande encontro. Delas. E delas com os livros.
Solange só aparece na praça no fim do dia, quando sai do trabalho. Mas a tia, não. Ela sai de casa cedo, com um caderninho na mão, e só volta muito depois, cheia de anotações e novidades.
- São dias de um banho de cultura - confessa a moça.
Afinal, a mulher mais velha conhece de cor os nomes das editoras, escritores e os livros da hora. Ela sempre foi assim. Por isso mesmo, dizem que ela escolheu a profissão certa: foi ser bibliotecária.
A tia volta pra casa encantada com esses passeios entre os livros. Relata as aventuras do dia com volúpia e alegria. Em uma das edições da feira, por exemplo, se juntou a um bando de adolescentes num ônibus, estacionado na praça, para acessar a internet.
- Se pudesse, bem que colocava uma cama na praça pra dormir lá nesses dias - garante, cheia de convicção, a Tia Lygia.
Tamanha é sua empolgação com os livros que até mesmo naquelas horas danadas, quando muita gente vai à loucura com essa coisa de aeroporto fechado e voos atrasados, ela se dá bem. Chegou em cima da hora, com as mãos cheias de malas, e ouviu a dura notícia: com o mau tempo, não havia previsão de partida.
Pois foram as duas - tia e sobrinha - para o café derradeiro. Quem estava lá? O poeta Thiago de Mello, Lenine, Fernanda Takai e uma tantada de outros escritores que, entra ano e sai ano, nunca deixam de vir a Ribeirão nesta época do ano. Foi uma festa só...
Pra não perder o costume, aproveitaram os instantes finais para uma última olhadela nos livros. Como ninguém é de ferro, nem nada, Tia Lygia não perdeu tempo e fez, ainda, uma comprinha de última hora. Escolheu o livro e enfiou na sacola antes da partida. O título?!
- Por Que Amamos Ler?, de Brian Bristol.
Galeno Amorim é jornalista e escritor. Leia mais no www.blogdogaleno.com.br. Mande sua história de leitor para galeno@blogdogaleno.com.br