Sua cidade como você nunca viu
Ribeirão Preto, 01 de agosto de 2010
Sábado, 31 de julho
Fonte: Transerp
Angelo Davanço*
Arnaldo Antunes lançou um grande disco. "Iê Iê Iê" mostra que, quando não fica preso aos cabecismos da poesia concreta, o ex-Titã faz música da melhor qualidade.
Partindo deste princípio, se esperava um grande show no último sábado (24), no Theatro Pedro II. Mas não foi bem isso o que aconteceu. "Iê Iê Iê" não funciona no palco. Arnaldo Antunes fez uma aposta arriscada. Escolheu mostrar todas as 12 faixas do novo disco para um público devidamente bem comportado nas cadeiras macias do teatro, que talvez esperasse por algo conhecido.
Ao ouvir o disco em casa, é possível notar os versos perfeitos de Antunes. "Não me falta cadeira / Não me falta sofá / Só falta você sentada na sala / Só falta você estar" (A Casa é Sua). "Meu bem, o que você pedir eu dou / O que você quiser saber I know" (O Que Você Quiser). Mas no palco, a verdade é uma só. Não rolou.
O som não ajudou. A voz grave do cantor se perdia pelos cantos. O figurino não ajudou. Arnaldo parecia desconfortável num terninho que parecia ser um número menor que o seu. A concorrência não ajudou. Antunes parecia, em certos momentos, intimidado pela presença de Edgard Scandurra, ex-Ira!, dividindo os aplausos da noite a cada solo de guitarra.
Por sorte o cenário ajudou. O fundo formado por umas, vá lá, quatrocentas camisetas anos 70 e 80, era um passatempo formidável. Numa corrida de olhos deu pra ver as tradicionais (John Lennon e Ramones), as místicas (Tim Maia Racional) e até as pratas-da-casa (Balas Chita).
Quando já não se esperava muita coisa, depois de cerca de 50 minutos de show, o baterista Curumim, inconformado com tanta gente sentada, bateu seus tambores chamando o público para a frente do palco e Arnaldo Antunes atacou de "Qualquer Coisa". Aí o show esquentou, mas já era tarde, já era o bis. E todos foram embora como chegaram. Bem comportados. Inclusive a banda.
* fanzineiro e jornalista, necessariamente nesta ordem