Sua cidade como você nunca viu
Ribeirão Preto, 01 de agosto de 2010
Sábado, 31 de julho
Fonte: Transerp
Delcy Mac Cruz*
As facilidades de se baixar filmes pela web escancaram o cinema nacional. Durante décadas ficamos sabendo por textos que o Cinema Novo e diretores como Glauber Rocha, Carlos Reichenbach e Walter Hugo Khoury, entre outros, estavam pau a pau com qualquer tendência ou cineasta europeu. Esse tipo de loas sempre pegou muita gente, incluindo eu, um ‘sr.' de 46 anos de idade.
O pessoal envolvido com tais nomes sempre foi condescendente. Não tinha tempo ruim para eles. A imprensa, os artistas plásticos, o pessoal de teatro. Ninguém nunca foi maluco de criticar as discussões urbanas propostas pelo cineasta Reichenbach, com filmes sempre ambientados na cidade de São Paulo, arredores e litoral paulista.
E a gente tinha que engolir porque ver tais filmes era impossível. As melhores locadoras, que ainda possuem VHS, só têm um e outro título do Reichenbach e do Khoury - o Glauber é mais bem-servido.
Pois bem. Qual é a sensação depois de ver pelo menos cinco filmes desses três diretores? De engodo, de enrolação, de comprar gato por lebre. Não vou nunca tirar o mérito do Glauber e, filmes à parte, tinha o tom polemista que muitas vezes superava sua produção - basta ver a briga que teve com o cineasta francês Louis Malle quando seu "Atlantic City" desbancou "A Idade da Terra", do diretor brasileiro, em Veneza. Glauber chamou o vitorioso de fascista pelo filme feito nos EUA, onde o francês já morava. Malle não deixou por menos e disse que Glauber fazia filmes financiados pela Embrafilme, do então governo militar. O saguão do hotel, onde ambos armaram o barraco, quase tremeu. Era o começo da década de 80.
Mas para ir direto ao tema desse artigo, não dá, simplesmente não dá. Baixei "Corpo Ardente", de 1966, do Walter Hugo Khoury. O estilo do cineasta está todo lá: mulheres lindas e maravilhosas insatisfeitas, maridos vazios, mundinho rico e cheio de gente inexpressiva. Por fazer filmes assim, Khoury arrumou contra si uma artilharia (falava-se patrulha na época) dos que o acusavam de alienado, de fazer filmes existenciais enquanto o Brasil pegava fogo com a ditadura militar. Bom, "Corpo Ardente" tem uma mulher linda, Barbara Lange, mas e daí? Você fica mais acompanhando a amargura dela, em filmagens bem feitas, sim, mas chatas ao extremo.
Pulemos para outro filme dessa fase que ninguém quase tinha acesso: "A Opinião Pública", de Arnaldo Jabor, feito em 1967. O cineasta dá voz aos anônimos, que dão opiniões durante todo o tempo. Tá bom. Mas de novo não dá. Parei no meio.
Bom, sobre o Carlos Reichenbach. Em 1980, ele fez "O Império do Desejo". Tudo bem que nessa época estávamos com a pornochanchada mandando ver como alternativa para o cinema brasileiro popular. Mas os filmes do Carlão escapavam de pornôs, ou não assumiam isso. Assim como Khoury, ele sempre inseriu mulheres lindas em suas produções. E, assim como Khoury, muitas vezes fica insuportável. "O Império do Desejo" até vai bem, com a atriz Meiry Vieira como viúva desejada por todo mundo, e tem um casal de hippies (nos anos 80...) que ela dá carona e deixa em sua casa de praia. Mas, gente, no meio aparece um maluco que sai matando as pessoas. Pra que isso?
O Carlão, que está na ativa, vai querer matar minha pessoa. Mas se o acesso a tais filmes fosse facilitado para qualquer um, certamente eu teria muita gente com opiniões semelhantes às minhas. Tais produções mostram que ter uma ideia na cabeça não basta.
* Jornalista, editor do site Agroind